"Por um lado creio que vivemos por nós mesmas."
Chego num impulso e faço coisas que nem me conhecia capaz de fazer. Olho pra todo mundo e procuro o que, na verdade, não faço ideia. Um resto de culpa, um vestígio de alguma mágoa mal-curada, o resquício de um rancor insolúvel; só pra não ter a impressão de que sofro sozinha desse mal invisível. Escolho os olhares mais estáticos, porque sei que por detrás deles há uma peça escandalosa, de milhares de atos, tragédias, romances, adagios infinitos. Sei lá, todo mundo só diz a mesma coisa, conversa sobre os mesmos assuntos, faz as mesmas perguntas idiotas. Ninguém para pra conversar sobre algo "profundo", coisa do tipo. Tudo bem que é chato ficar falando de coisas sérias o tempo todo, mas a gente pensa pra isso. É pra isso que serve o pensamento, pelo menos pra mim. Pra entrar ou sair de mim. É triste olhar pros outros e buscar o que esse alguém realmente pensa e não encontrar nada. Não encontrar quem se entregue ao infinito do que é, porque a vida não compensaria em nada se fosse tão finita e sem significados. É babaca demais acordar e passar o dia todo sem uma reflexão.