Há um mundo todo nesse rosto. Não, não um mundo, vários; infinitos mundos nesses traços que tão poucos conservam na mente. Tem pouco valor, algumas marquinhas que não tiram a imponência, só a acentuam. Tem um mar de dor nos olhos e a cor ratifica. É de uma luminescência falsa, de um véu demasiado delgado, cintila, mas nunca completamente. Não caminha, pulsa. Não percorre, vaga. Por medo, por falta de perdão. Não entende de música, não entende de letras, não entende de cultura; entende de cuidado, entende de manejo, entende de carinho. Para os outros, coisas de pouco valor, porém seu único tesouro. Ela passa dias sentada à frente da máquina, cosendo a dignidade e o futuro que desconhece. Afinal, quem é conhece as vontades desse nosso Pai?
Eles todos foram embora. Chegaram como uma ilusão de felicidade eterna, dormiram debaixo de seus verbos e de suas mãos. E se foram como fumaça. Deixaram com ela as lições, mas com quem as usaria agora? Se não tinha ninguém a quem ensinar... Conformava-se com o tempo cruel, ajeitava o colarinho do mesmo, ainda que este lhe pisoteasse a face. As flores e os frutos tomaram outros rumos, sem deixar semente nem aroma. Ilusão de cor, ilusão de amor. Um calorzinho seguido de gelo. Sensação de pertencer e de ser arrancado de si mesmo.
O que podia fazer a velha senhora? Pedia piedade, pedia renascimento, pedia paz. Mas já não era pacífica a sua existência? Sem preocupações, sem medo do futuro, sem expectativas... Então, sem frustrações? Toda de frustrações. Ela tinha sonho de ser o que mesmo? Ela algum dia teve um sonho? Só conheceu o casamento, a si mesma que era bom, nada. Era um nada. Marcas de um sofrimento entorpecedor, porque "era assim mesmo", "como deveria ser". Afinal "bom viver, não é?" Sorria e pintava o rosto com os conselhos que recebia de um vazio. Acompanhava os passos de uma tirania que lhe sorria de vez em quando e lhe agradava os olhos, não importasse o franzido na testa. Pela primeira e única vez na vida, tinha sido escolhida, mesmo que pelo diabo. Pelo menos ele sorria.
Criava imagens e as despia de rancor, como sempre, a vida era boa. A teoria de um filme hollywoodiano, cheio de cores, cheio de amor, cheio de família. "Ninguém gosta de gente com problemas", realmente, pensava, ninguém gosta. Era feliz como uma criança no parque de diversões, às vezes feliz como uma criança no dia de seu aniversário, às vezes só uma criança mesmo. Nunca buscou rasgar a inocência, porque ela era bonita, e, por que o faria? O mundo é tão belo aos olhos de uma criança. Dizem que fica ainda mais bonito quando se envelhece... Dizem que até os problemas ganham romantismo. Ninguém sabe, ah, ninguém nunca sabe.
Um dia ela acorda, esquece de pôr a mesa e desanda.