Ela foi embora sem dar uma sombra sequer de satisfação. Ela sumiu e deixou os quatro anos do meu desespero que carregava nas costas no meio fio. Deu a César o que era de César. Durante esse tempo todo, eu nunca disse que a amava. A elogiava de tempos em tempos; ela era bonita, não que eu a achasse, qualquer um podia perceber como ela era bonita. Os olhos dela eram, apesar de dolorosamente escuros, transparentes. Ela fazia tudo o que eu queria, antes mesmo que eu pudesse pedi-lo. Eu a ouvia chorando e mudava de cômodo, aumentava o som da TV, saía pra beber. Eu sempre fui prioridade pra ela, ela foi... não sei o que ela foi pra mim. Nunca a amei de verdade, nunca amei ninguém. Era doloroso suportar o semblante dela quando eu não podia retribuir aquelas palavras; aquelas malditas palavras, aquelas que qualquer um fala, mas que ninguém realmente faz, nem mesmo minha própria mãe.
Não suporto ter que considerar os impactos que minha querida progenitora me causou. Um frustrado, louco, hipocondríaco, viciado. Eu não ando seguro e não me lembro de ter sentido qualquer coisa parecida com segurança. É como se eu estivesse sido perseguido por algum psicopata ou pelos fardados vinte e quatro horas por dia. Por que ela tinha que ser tão filha da puta? Até hoje, nada fica na minha vida por muito tempo. Se você já passou pela minha vida e percebeu que te fiz sair dela sem muita explicação, bom, aí está sua justificativa: eu abandono antes que seja eu o abandonado.
Bom, isso não é sobre minha mãe, é sobre Alice. Alice me deixara pela milésima vez em quatro anos, eu poderia pensar que fosse por capricho, porque ela era, de fato, muito mimada; eu até pensei, por uns oito meses... ela se fora de verdade. Não sei o que seria daquela vagabunda sem mim, sem emprego, sem quem a sustentasse, já que ela não sabia fazer nada sozinha. Eu podia não ser o melhor companheiro do mundo, mas eu, definitivamente, cuidava pra que ela tivesse tudo que quisesse. Ela usava as melhores roupas, os melhores perfumes, jóias, e sempre reclamava; sempre tinha algo do que reclamar. "Você chega tarde demais", "você fuma demais", você bebe demais", "não pode beber enquanto toma psicotrópico, seu imbecil". Ela adorava me chamar de imbecil, era o xingamento preferido dela. Entre o que a gente fazia e desfazia naquele apartamento, ela me fez o cara mais infeliz do mundo. A quem eu quero enganar? Eu sou um cara infeliz; fui infeliz antes dela, com ela, sem ela. Como todos os outros, ela só quis ajudar.