Por essas e outras coisas eu faço um pacto comigo, de nunca deixar que ninguém me mostre até que ponto eu posso ou não sentir as coisas. Interpreto tudo da pior forma possível mas sem controle algum, não é proposital. Podia ter uma fórmula, um antídoto, qualquer coisa que não fosse a morte que cessasse essa sensação de desequilíbrio. Essa coisa de se sentir como um bêbado, mas sem a parte legal. Uma tontura, fraqueza, perda de sentidos, e esse cansaço infinito. Todos os tipos de cansaço.
Coloquei pra mim um objetivo: aprender a expressar todos os meus sentimentos por meio de palavras, sem deixar que nenhum, por mais insignificante que fosse, passasse; mas nem bem me comprometi a isso e já começo falhando, como se fosse um projeto já arruinado na minha cabeça, mesmo antes de começar. Porque eu não pareço acreditar que consigo, mesmo finalmente tendo conseguido formar algo e planejar, coisa que eu nunca consigo. Até então nunca tinha tido um sonho que me comprometesse a realizar. E ainda assim, mesmo conseguindo pensar nisso, planejar, tentar, já pensava que não conseguiria. De onde vem isso? Algo da minha infância, algo de família, será? Acredito que se soubesse o nome disso, ao menos de onde vem, conseguiria lutar contra isso propriamente.
Eles tentam me ajudar como podem, me ouvindo, me aconselhando, mas adianta? Eles perdem o tempo deles com algo tão ridículo e com alguém que não é merecedor do esforço. Quem entenderia? Eu tento explicar e não tenho sucesso, ouço sempre as mesmas coisas pois digo sempre as mesmas coisas. Eles tentam me ajudar como podem, mas talvez eu não queira ser ajudada. "Me sinto sozinha, isolada." Por quê? Desde quando eu me sinto assim? E quando isso vai acabar? Não consigo aceitar que nasci assim, que estou condenada a viver lidando com isso, aceitando essa desgraça vinda não sei de onde que me atormenta dia e noite e que me faz sentir culpada por cada coisa boa que me acontece, fazendo com que me ache desmerecedora de qualquer sentimento de aprovação, carinho, fidelidade. Eles sempre falham comigo no final, e é só nisso que acredito.
"O beijo é a véspera do escarro." Como? Ao mesmo tempo em que confio cegamente, desacredito e condeno. São todos corruptos, olham nos olhos e mentem, e quando eu posso descobrir, desmascarar todos? São seres humanos, assim como eu, mas não como eu. Nunca como eu. Eu não sou como eles, e isso dói. Por que quereria eu ser como pessoas por quem nutro certo desprezo? Que ridículo esse paradoxo a que me sujeito. "Eu sou humano e preciso ser amado assim como todo mundo." Que tipo de ser humano eu sou? Que tipo de ser humano me amaria? Ninguém é igual a ninguém, e nada interessa ao mesmo tempo. Nada interessa mais do que a cor da sua pele, o formato dos seus olhos, as palavras que saem da sua boca; nada interessa mais do que o cabelo hidratado, as pernas durinhas, a barriga lisinha; nada interessa mais do que a sua maquiagem, a sobrancelha feita, os dentes certinhos. Nada interessa mais do que a gente mostra, e como a gente quer mostrar! Só que poucos se rasgariam ao meio, poucos explodiriam em pedacinhos pra mostrar o que tem por dentro. Poucos se arriscariam a jogar tudo pra fora, vomitar tudo que angustia, que agonia, que faz guerra por dentro. Já não sei mais se penso por cima, ou se é meu peito que comanda tudo. Mas é como se fosse uma massa inquieta, um emaranhado de coisas de milhares de cores se mexendo em volta do meu coração, comprimindo o mesmo, fazendo com que minha respiração pese.
"É o inferno, eu grito, mas ninguém escuta." Quero uma causa pra viver e morrer, e não sou suficientemente valiosa pra mim a ponto disso. "Muita gente queria ser como você, ter o que você tem, parecer com você." Se soubessem de verdade com o que lidariam, não quereriam nunca. "Ninguém gosta de mulher doente." Ninguém gosta de nada com que não sabe lidar. Todo mundo tem milhares de identidades, e por amor e urgência à auto-destruição, resolvemos ser a pior.