domingo, 25 de agosto de 2013

O nome dela

    Ela foi embora sem dar uma sombra sequer de satisfação. Ela sumiu e deixou os quatro anos do meu desespero que carregava nas costas no meio fio. Deu a César o que era de César. Durante esse tempo todo, eu nunca disse que a amava. A elogiava de tempos em tempos; ela era bonita, não que eu a achasse, qualquer um podia perceber como ela era bonita. Os olhos dela eram, apesar de dolorosamente escuros, transparentes. Ela fazia tudo o que eu queria, antes mesmo que eu pudesse pedi-lo. Eu a ouvia chorando e mudava de cômodo, aumentava o som da TV, saía pra beber. Eu sempre fui prioridade pra ela, ela foi... não sei o que ela foi pra mim. Nunca a amei de verdade, nunca amei ninguém. Era doloroso suportar o semblante dela quando eu não podia retribuir aquelas palavras; aquelas malditas palavras, aquelas que qualquer um fala, mas que ninguém realmente faz, nem mesmo minha própria mãe.
    Não suporto ter que considerar os impactos que minha querida progenitora me causou. Um frustrado, louco, hipocondríaco, viciado. Eu não ando seguro e não me lembro de ter sentido qualquer coisa parecida com segurança. É como se eu estivesse sido perseguido por algum psicopata ou pelos fardados vinte e quatro horas por dia. Por que ela tinha que ser tão filha da puta? Até hoje, nada fica na minha vida por muito tempo. Se você já passou pela minha vida e percebeu que te fiz sair dela sem muita explicação, bom, aí está sua justificativa: eu abandono antes que seja eu o abandonado.
    Bom, isso não é sobre minha mãe, é sobre Alice. Alice me deixara pela milésima vez em quatro anos, eu poderia pensar que fosse por capricho, porque ela era, de fato, muito mimada; eu até pensei, por uns oito meses... ela se fora de verdade. Não sei o que seria daquela vagabunda sem mim, sem emprego, sem quem a sustentasse, já que ela não sabia fazer nada sozinha. Eu podia não ser o melhor companheiro do mundo, mas eu, definitivamente, cuidava pra que ela tivesse tudo que quisesse. Ela usava as melhores roupas, os melhores perfumes, jóias, e sempre reclamava; sempre tinha algo do que reclamar. "Você chega tarde demais", "você fuma demais", você bebe demais", "não pode beber enquanto toma psicotrópico, seu imbecil". Ela adorava me chamar de imbecil, era o xingamento preferido dela. Entre o que a gente fazia e desfazia naquele apartamento, ela me fez o cara mais infeliz do mundo. A quem eu quero enganar? Eu sou um cara infeliz; fui infeliz antes dela, com ela, sem ela. Como todos os outros, ela só quis ajudar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Lembrando de esquecer

    Não quero ter que fazer compras no mercado. Não quero ter que saber o que fazer quando for limpar uma casa. Não quero ter que limpar uma casa. Quero que se foda a culinária. Não quero saber. Não quero ter que saber. Por que eu "tenho" que saber? Hein? Eu não tenho que saber de nada além do que eu queira saber. Eu sei que não é assim, mas é assim que eu quero que seja. Por que eu não posso aprender só o que me interessa? Por que eu não posso ver só que me interessa agora sem nem conhecer o que eu to perdendo? Eu não to perdendo se eu não conheço. Isso não existe. Isso não faz nenhum sentido.
    Tanta regra e a gente acaba no mesmo lugar. Tudo diferente, extraordinário dentro do comum. Tudo é comum e tudo é extraordinário. "Como você espera ter uma vida comum quando tem tantos dons extraordinários?" São comuns para alguém. Tudo é comum. Eu sempre faço tudo ficar comum, entediante, monótono. Por que eu sempre faço isso? Talvez porque eu seja uma pessoa comum. Talvez eu não seja e busque o conforto de sê-lo.
    O momento de paz tem durado e eu não consigo mais planejar nada. Eu não tenho mais medo. Por que eu não tenho mais medo? Será que eu nunca mais vou ter medo? Será que eu sempre vou mudar tanto assim? Será que eu vou passar meses com em mais algum momento da minha vida? Será que eu vou ficar idiota? Será que um dia eu vou parar de me questionar tanto e vou só rir de como eu era inocente? Será que eu ainda sou inocente? Eu devo ser. Não sei se quero parar de me questionar, porque eu acho divertido esse meu jeito de lidar com as coisas; ou de tentar lidar e só acabar com milhares de perguntas em aberto. Perguntas que eu vou resolvendo com o tempo e que nem nunca percebo.
    Eu podia cair no sono e acordar num mundo diferente. Isso tudo podia ser um sonho e os sonhos podiam, na verdade, ser a vida real. E se a gente não existe de verdade? E se for tudo sonho de alguém? Como é que a gente pode ter tanta certeza de que é real?

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Profecia

    Eu caminhava sozinha no meio daquele bando de gente infeliz que não parava de falar sobre suas vidas miseráveis. Eu pensava na desgraça que tinha passado, nas desgraças que ainda passariam, em tudo que ta acontecendo agora. Talvez eu não mereça nada, mas eu devia me lembrar de que a gente quase nunca controla as coisas e isso de "fazer por merecer" é ridículo. 
    Não tenho mais nada pra pensar além do que eu sou e do que eu faço, porque não existe presente, é passado e futuro na minha cabeça. O presente é muito vago, muito perigoso. Essas pessoas, quem são essas pessoas? Elas têm suas ocupações, suas famílias, suas responsabilidades, elas têm alguma coisa que eu não tenho. Todo mundo tem algo que eu não tenho. Eu não tenho paz. Achei que já tivesse aceitado e estivesse aprendendo a lidar com essa situação... Essa sensação de que minha cabeça pesa, de que eu vou vomitar, chorar e gritar ao mesmo tempo. Essa sensação de implodir.
    Sei que não choro há mais de um mês, e isso é tão bom. Por mais que eu tente ficar remoendo as coisas, minha cabeça não me dá tempo. Tem tudo dado quase certo, mas eu to conseguindo me focar no que realmente deu. É tipo "oh, pensa em coisas ruins, pensa em coisas ruins... não! há coisas boas demais acontecendo, não vale seu tempo pensar em coisas ruins. é passado." e eu volto. 
    Queria nunca mais ter momentos de crise. Momentos de me perder no que eu penso, ficar desequilibrada, querer destruir tudo que eu construí. Fico pensando no que eu tenho feito da minha vida até agora, às vezes fico triste por ter a idade que eu tenho e não ter feito quase nada que me faça me sentir realizada. Eu consegui tudo que os outros conseguiram, mas eu não sou como os outros... mania. Um dia me disseram que eu consigo enxergar o que muita gente não consegue, e eu já sabia disso, mas foi dito como "você é capaz de descobrir em dez segundos o que pessoas estudam anos e anos pra descobrir a metade"; eu gostei tanto. Acreditei tanto. Só que me fez acreditar ser como todo mundo, porque eu fui enganada de alguma forma. Todo mundo vai ser enganado uma vez na vida, ficar cego, ficar bobo, ficar bem idiota mesmo. Virar um trapo. O que me conforta é saber que eu não me privaria de me sentir assim se soubesse o que viria depois. 

domingo, 30 de junho de 2013

Canto

Seu encanto falece
Mas nunca floresce
Em que canto se desencantou?

Nunca compreendeu
Sempre se emudeceu
Que glória há nisso?

Deita só e em silêncio
Sem nenhum canto que encante em seu canto
Duas mil rosas e nenhuma nota
De que adianta?

Conheça o perdão
Perdoe o desencanto
Que lhe encantou
Por tirar seu canto.

sábado, 22 de junho de 2013

Qualquer coisa

    Pra ser bem honesta, a gente nunca se entendeu muito bem de verdade. Sempre falamos línguas completamente diferentes. Eu tentava captar algumas coisas do seu código e me esforçava muito pra me comunicar, e você não fazia esforço nenhum, só me ensinava de vez em quando, mas sempre se recusou a aprender o que quer que eu tivesse a ensinar. A gente não duraria dois segundos no mesmo mundo. 
    Entre as coisas que eu vivo hoje e as coisas que já vivi, escolho as que ainda vou viver. Eu perco tempo demais em qualquer etapa, sempre pensando e repensando, remoendo. Dentro das coisas que eu vivi, eu viajo, eu busco conexões e eu me perco; demoro pra me reencontrar e me situar no que eu vivo, quando caio em mim, já estou onde viveria, Longe, sem intenção nenhuma, sem objetivo, sem ter planejado nada. Fico me jogando nos espaços que não conheço, esquecendo de como dói cair de uma altura desconhecida, esquecendo de como é áspera a sensação de esquecer de algo importante. Alguém importante, não sei. Eu sei que procuro fazer alguma coisa que me preencha, mas acho que eu mesma sou um vazio ambulante. Sempre tento algo novo, coisas, pessoas, lugares, músicas, passeios e... nada. Já tentei divindades, coisas desse tipo mas... nada. É uma dúvida que não some e eu sei que só vai sumir quando isso tudo acabar. 
    Sinto as coisas sem muito significado e o que a gente faz é só o que a gente faz, atinge os outros, atinge a nós mesmos, atinge o ambiente, mas não interessa tanto assim. Nada interessa tanto assim. Algumas coisas parecem o fim do mundo, mas no final das contas, são pequenas, insignificantes coisas nesse universo infinito. Que significa sua lágrima diante dessa imensidão toda? Que significa seu sangue? Não somos tudo isso, definitivamente, não somos nada disso. Fugimos do castigo porque fugimos de qualquer dor, mesmo se a punição corresponde ao crime. Jogamos toda justiça fora quando a mesma nos fere. Que tipo de consciência é essa? É falta de qualquer discernimento, falta de qualquer complexidade, é puramente instintivo. O próprio bem a qualquer custo. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Demônios

Há um modelo a ser seguido 
Tenho pena do sem abrigo
Isolado em seu delito
Descrente e aturdido

Em descanso eterno
Olha a paisagem como vertigem
Na onda de horror que o persegue
Vê mas não enxerga

No sopro frio que o invade
Encontra consolo na miragem
De um aconchego 
Do verde encanto dos olhos sem pranto

Em seguida passa enferma
Sua luz abatida
Entre camadas de depressão e angústia
Agonia comprime suas feições

Entre um vento e outro
Ouve o canto da morte
Adagio calmante e perigoso
Espera na descrença de um novo refúgio

Sem cerimônia nem desespero
Quem é quem quando não se espera a quem?

Subvertendo

É um movimento diferente
Num momento incoerente
Sem crise, sem tiro

Não há escutas
Há orações
Não há bala de canhão

Finalmente
É tudo exatamente o que parece
Sem"ler nas entrelinhas"

É tudo exatamente o que parece
Controvérsia é engraçada
Embalado em divergência
Embaçado pela insipiência

Controvérsia inspira
Mas eu só me inspiro quando to triste
E a vida anda interessante pra viver
Tanto que escrever não anda tão urgente.