quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

For as long as you're here, we're not

   Era um dia comum, mas foi nesse dia que ela decidiu. Seria outra pessoa. Bem, talvez seria apenas quem realmente era. Pra começo de conversa, ela nunca soube quem era de verdade. Tudo ficava cansativo, entediante, sufocante. Muito a aprender em tão pouco tempo. E ela estava tão sozinha. A maneira como a olhavam era tão crítica, rígida, e ela nunca entendia o porquê. Imaginava, e sempre concluía que não era boa o suficiente; havia algo ali que, definitivamente, tinha que mudar. O medo e a dor pingavam de seu rosto e ninguém se dignava a secá-los.
   Então ela pensou numa mudança. Não viria dos outros, porque não havia fé nos outros. A mudança viria dela, e então, ela o fez, ela mudou. Ela deixou que a escuridão a abraçasse, porque não havia outro lugar que fosse tão pacífico e perturbador o suficiente para que pensasse claramente. Ela queria sumir perdendo todo traço de humanidade que pudesse condená-la, inclusive o que restava da esperança. Dispensável. 
   E não dava pra sentir falta daqueles. Eles nunca importaram, de qualquer forma. Não compreenderiam e não veriam romantismo nenhum. Só ela conhecia a sensação de estar "limpa", livre do que pudesse pesar no corpo, na mente, na "alma" de que ela nem tinha certeza. Nem respirava pra não correr o risco de inalar a vida. Pra que ela precisaria de uma vida?
   Havia dias em que ela queria que tudo fosse diferente, mas ah, pra que? Tinha praticado, já conseguia se enrolar em si mesma e entrar no lugar mais profundo do buraco que tinha no peito. Era confortável ficar lá e se consumir em qualquer momento de fraqueza. Não era seguro, disso sabia, mas era o melhor que pudia buscar; o mais confortável que podia conseguir. O ódio era tanto. Nem sabia de onde poderia ter vindo, quem poderia tê-lo criado, quem será? Era monstruosa a vontade de se destruir, mas parecia tão bonita!       Algumas noites sem dormir, algumas gotas de sangue no chão, algumas dores, hm, um segredo. Um segredo que guardava como sua vida, bom, não como sua vida, porque sua vida não tinha importância alguma. 
   Não dava pra negar que chorava todos os dias, que as manchas no corpo não eram acidentes, que o sorriso  raríssimo não era marca de personalidade.
Era só dela a situação, a culpa também. Podia ser mais forte, ter mais posição frente aos outros, não se deixar influenciar por nada, não ouvir aqueles demônios. Mas não tinha jeito consigo mesma, teria como com os outros? 
   Um deles a tratava tão bem. Era sentir qualquer indisposição, culpa, vontade de morrer, que estava tudo lá. Toda a aparelhagem pra fazer a dor pingar e escorrer pelo ralo. Um escape. Uma dor por outra. No fim, não doía mais nada, não tinha barulho, não tinha cheiro, era só fraqueza. Acabava dormindo. 
Aumentava as doses pra voltar a sentir algo, porque, mesmo que não sentisse dor, era perigoso não sentir nada. Ia se aliviar com o que, afinal? Não há nenhum respeito. 
Já que não havia mais nada, não faria sentido continuar com isso. E com mais nada. Bom, faria sentido tentar de novo. E de novo. E aumentar as "doses". Perder a conta. Perder tudo. Fim. 

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