É sempre sem marcar horário. Não dá tempo de piscar, de respirar, de construir algum tipo de barreira. É um castigo pra punir um inocente, um cego e um suicida. Era posto num quarto escuro, trancado, fazia de tudo para abrir a porta; um dia se conforma e, sempre que é castigado, espera que passe o tempo da punição. Há dias em que a porta não mais é trancada, nem sequer fechada. Mas permanece ali, como se houvesse algo real que o prendesse, algo além da própria mente. Castigando a si mesmo, com a consciência de uma culpa que não o pertence. Uma culpa que fizeram-no acreditar ser sua. A responsabilidade por todo sofrimento.
Não era bonito, não inspirava poesia, não inspirava nada mais do que pena. Ninguém gosta de sentir pena. Era a solidão que transbordava dos olhos cansados e inchados; o meio sorriso que quase nunca ficava inteiro; a perda de tudo, dos outros, de si. Deve ser porque ninguém nunca tem o que precisa, quer sempre mais, se afunda em desejos impossíveis, em ambições fúteis, em medos, naturalmente, paralisantes.
Não havia muro nenhum, nem travas, nada físico que impedisse o início de uma vida, de uma liberdade plena. Só medo. E parecia tão grande. Questão de valência e potência; coisa de gente que dá importância demais ao subjetivo, gente que sofre de verdade e se permite sofrer, mostra pra todo mundo que sofre, não se importa com nomes, não se importa com julgamentos, mas sofre por incompreensão. Sofre por tudo que existe e pelo que nem foi criado. É tudo mais difícil, porque é pessimismo, misturado a temor, ansiedade, angústia, solidão, dor, insuficiência, insegurança, é um amontoado de coisas. Dói enquanto vive.
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