Tem um período em que tudo parece permanente. Não chega a ser uma calmaria, mais algo fixo mesmo. Algo que nunca vai embora, nunca parte completamente, mas não por nunca ir, mas por sempre voltar. É de um brilho e ao mesmo tempo de uma sobriedade incompreensíveis. Não há como decifrar as cores. Ela cobre tudo por onde passa, deixa tudo nessa tonalidade que confunde; não se sabe se dia ou se noite. Ela ilumina todo canto, mas não avisa que vem escuridão. Ilude. Quer o controle de tudo, e sabe que ninguém a para, a não ser o mandante. Não tem medo, não tem cicatrizes, não se frustra. Frustra os outros, sabe como, porque é intocável. Se entristece por isso? Será? Tem nas mãos todos os desejos e sonhos da terra, tem sobre si os olhos dos poetas e de um apaixonado qualquer. Não precisa temer. Ela sabe que nunca perderá seu papel.
Vagarosamente alguém chega e a subordina. Seus domínios antes tão certos e intocáveis são submetidos a um forte aquecimento. Algo surge da coragem e abala a certeza. Ela duvida por alguns segundos que terá o que sempre teve, há o medo de perda. Mas ele a acalma; embora tenha todos os artifícios para dominar o que queira, ele decide que esperar é o certo. Fica tudo intermediário. Laranja. Ele podia tomar para si o que é seu por direito, mas foi tão nobre esperar o tempo dela; tão gentil esperar que se acalmasse.
Ela consegue resistir por alguns segundos, mas ele é tão persuasivo! Ela sabe que deve ir.
Ele a vê partir e não permite que olhe para trás. Há algo sobre o tempo que não permite que se acomodem em seu espaço; não foram feitos para passar por ele juntos. São funções demasiado divergentes; ela ilude, ele clareia a visão... ou faz com que a mesma fique mais turva ainda. Os pedaços deixados por ela são maculados pelo fogo, pelo cheiro de vermelho, sangue, ardor. Ele fecha as portas e domina o que não é seu; ele se lembra.
Alguém ainda luta para vingá-la. Vem com olhos doces e muita calma, mas se impõe. Fecha os olhos dele com as pequeninas mãos, e ele adormece ao aroma de sua voz. O início. Ou o fim.
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